Manta de trapos Miguel Barbosa


Especificações


Descrição

MANTA DE TRAPOS
Miguel Barbosa
1ª Edição de 1962
Sociedade de Expansão Cultural
Páginas 236
Dimensões: 190x125 mm
Peso: 213
IS 1543325890

Exemplar amarelecido com algumas manchas de acidez na capa.

PREÇO: 8.00
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Envio em Correio Registado acresce a taxa em vigor.

O CONTRABANDISTA

A água caía torrencialmente, quando o Alfredo se abrigou debaixo do vão de uma escada do Bairro Alto. Na parede do prédio em frente, numa casa das chamadas «típicas», havia um cartaz de propaganda que lhe dizia em ar de troça: «No rain in Portugal». Mascando uma obscenidade, bateu com os pés gelados no chão para sacudir das calças os pingos de chuva. Pôs-se a espirrar. Era a pouca sorte que o fazia constipar-se com tanta facilidade. Ao regressar, a mulher tinha de se levantar mal humorada para lhe fazer um chá de casca de laranja e aquecer a botija para os pés!

Sentia-se cansado de andar pelas ruas a fugir dos guardas. Tinham aparecido na altura em que o Pimenta lhe dava os pacotes de «Chesterfield>>.

Foge! dissera-lhe.

Agarraram o Pimenta, mas ele procurava resistir. Ainda se safou com um encontrão do guarda que o prendia, mas não escapou ao cacete dos outros.

Rolou desamparado pelas escadinhas da Travessa do Tijolo. Por ver o que sucedera ao outro, fugiu assustado, ao acaso pelas vielas!...

Quando parou de chover e se convenceu de que já não havia perigo, saiu do esconderijo. O sol rompia por entre as nuvens e os velhos abriam as portas das ruas e vinham sentar-se nos degraus à procura de um pouco de calor. As crianças formavam dois grupos e punham-se a jogar com uma bola feita de uma velha meia. Teve de se desviar, para não levar com os trapos na cara.

-Passe o esférico! - diziam-lhe.

Deu-lhe um pontapé.

Cuidado, a polícia! - avisou um dos velhos.

As crianças agarraram na bola e começaram a fugir ao ver o guarda. Assustou-se também, pensando que era capaz de andar à sua procura, e atravessou rapidamente a Rua da Rosa, para se esconder na esquina do «Cunhal das Bolas». Ao ver que o polícia não vinha em sua direcção, contornou rapidamente o hospital «Saint-Louis» e meteu-se em casa na «Travessa do Cabra».

Limpa bem os pés, antes de entrares! - disse--lhe a mulher.

Resmungou aborrecido.

- Bem se vê que vocês os homens não sabem o que isso custa! Tenho o peito e os braços doridos de esfregar.
dorme? Venho cansado. Deixa-me em paz. A menina

Era a criança que o prendia ao lar, pois estava cansado da mulher. Gostava de a ver, curiosa de tudo a segui-los com os olhos pela casa fora. Estendia o dedo e ela agarrava-o com a mãozinha, na ânsia de levar à boca.

Luísa, a menina tem fome.

Ora, acabou de mamar.

-Vê como me chupa o dedo.

-É mania. Todas as crianças o fazem.

Olhava-a com desconfiança e pegava na criança.

-Está mais magra!

Largava-a para desabotoar a blusa da mulher apesar da sua resistência.

Quero ver os seios.

Procurava neles a marca dos dedos da criança. O bico, que ainda devia estar avermelhado.

A mulher fechou a blusa e foi para a cozinha fazer o jantar. Ele deitou-se em cima da cama e tirou da algibeira o resto de um cigarro. «Quem seria o filha da mãe que os denunciara?» Estava cansado, farto de fugir e aquilo tinha de suceder mais tarde ou mais cedo. Ele sabia-o desde o princípio. Estava escrito que acabaria por ser assim. Outros talvez conseguissem escapar, mas ele não.

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V. Oliveira

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