O Delfim - - José Cardoso Pires CM


Especificações


Descrição

O DELFIM - CM
José Cardoso Pires
Publicações Dom Quixote
10ª Edição 1988
Páginas: 227
Dimensões: 210x135 mm
Peso: 244
TX-A026-G274-0.92PR

Exemplar em bom estado.

PREÇO: 6.00EUR
Acresce portes Correio Editorial


Análise e Resumo de "O Delfim": A Radiografia de um Portugal Estagnado

Considerado de forma quase unânime como uma das obras-primas da literatura portuguesa do século XX, O Delfim de José Cardoso Pires é muito mais do que um romance com contornos policiais. Publicado no final da década de 60, em pleno crepúsculo do Estado Novo, o livro é uma brilhante e impiedosa metáfora sobre a decadência, a estagnação e o fim de uma era em Portugal.
O Ponto de Partida: Um Regresso à Gafeira

A narrativa desenrola-se em torno da aldeia fictícia da Gafeira, um microcosmo do Portugal rural, fechado, bafiento e dominado pelos velhos costumes e hierarquias. O livro começa com o regresso do narrador um escritor que funciona como uma espécie de alter ego do próprio autor e como o investigador da trama a esta aldeia, um ano após ali ter passado uma temporada de caça.

O motivo do regresso não é pacífico: o narrador sente-se atraído por um mistério sombrio, uma tragédia que destruiu a família mais poderosa da região. A casa que antes fervilhava com a presença do seu anfitrião está agora abandonada, e a narrativa constrói-se em forma de puzzle, através de memórias, depoimentos fragmentados e reconstruções, tentando responder à clássica pergunta do romance policial: o que aconteceu realmente?
O Triângulo Central e o Mistério

O enredo gira em torno da figura central de Tomás Manuel da Palma Bravo, a quem chamam o "Delfim". Na tradição monárquica francesa, o Dauphin é o herdeiro do trono. Aqui, o título é carregado de ironia: Tomás Manuel é o herdeiro de um império rural caduco, um "rei" de uma terra estagnada. Engenheiro de formação (embora não exerça), caçador inveterado, machista, arrogante e dono de quase tudo na Gafeira, ele personifica o patriarcado e a aristocracia rural decadente.

No centro da tragédia estão também duas outras figuras cruciais:

Maria das Mercês: A esposa do Delfim. Uma mulher de origem citadina e aristocrática, envelhecida precocemente, submissa, profundamente infeliz e frustrada pela ausência de filhos. A esterilidade do casal é um dos grandes motores simbólicos e psicológicos da obra.

Domingos: O criado maneta. Submisso, leal ao limite da escravidão, representa a classe oprimida e popular de Portugal. Domingos é quem conhece os segredos da casa e quem sofre na pele os abusos do patrão.

A tragédia que o narrador tenta desvendar culmina na Lagoa da Gafeira: Maria das Mercês aparece morta na água, agarrada ao cadáver de um mastim (o cão de guarda e de caça favorito do Delfim). Simultaneamente, tanto Tomás Manuel como o criado Domingos desaparecem sem deixar rasto.
A Reconstrução do Puzzle

Ao longo do romance, o narrador cruza as suas próprias memórias com os relatos do regedor da aldeia, do padre, das mulheres da aldeia e de outras figuras típicas que compõem o cenário social da Gafeira. Descobrimos gradualmente a violência psicológica e a tensão insustentável na casa dos Palma Bravo.

Tomás Manuel, obcecado com a sua masculinidade e virilidade (expressas através do seu amor pelas armas, pela caça e por um carro desportivo, o Jaguar), sofre secretamente com a infecundidade do seu casamento.

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