"A INVENÇÃO DO AMOR e outros Poemas" de Daniel Filipe - 4ª Edição de 1977
Preço: 15 €"A INVENÇÃO DO AMOR e outros Poemas" de Daniel Filipe - 4ª Edição de 1977
Especificações
- TipoVenda
- ConcelhoCascais
- FreguesiaCarcavelos e Parede
- Id do anúncio44928472
- Id do anunciante26PP
Descrição
"A INVENÇÃO DO AMOR e outros Poemas"
de Daniel Filipe
4ª Edição de 1977
Editorial Presença
Coleção Forma Nº 1
92 páginas
A INVENÇÃO DO AMOR
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de apa-
relhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Excerto
---
Daniel Filipe nasceu na Boa Vista, Cabo Verde, em 1925. Veio para Portugal ainda criança, onde acabaria por concluir o Curso Geral dos Liceus. Mais tarde, foi co-diretor dos cadernos Notícias do Bloqueio, uma série de nove fascículos de poesia, colaborador assíduo da revista Távola Redonda, para a qual dirigia a Coleção de Poesia, do jornal Diário Ilustrado e da revista luso-brasileira Atlântico, e foi também realizador, na Emissora Nacional, do programa literário Voz do Império. De jornalista a funcionário, desempenhou ainda funções na Agência-Geral do Ultramar. Combateu a ditadura salazarista, tendo sido, como tantos outros opositores, perseguido e torturado pela PIDE. A Invenção do Amor, o seu poema que, até hoje, é um dos marcos da resistência, demarca-se pelo tom acusatório, de luta e reivindicação de um sujeito livre e individual, que, pelo amor, emergirá do coletivo. Daniel Filipe morreu, em Lisboa, aos 39 anos.
ESGOTADO NAS LIVRARIAS
BOM ESTADO - PORTES GRÁTIS
de Daniel Filipe
4ª Edição de 1977
Editorial Presença
Coleção Forma Nº 1
92 páginas
A INVENÇÃO DO AMOR
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de apa-
relhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Excerto
---
Daniel Filipe nasceu na Boa Vista, Cabo Verde, em 1925. Veio para Portugal ainda criança, onde acabaria por concluir o Curso Geral dos Liceus. Mais tarde, foi co-diretor dos cadernos Notícias do Bloqueio, uma série de nove fascículos de poesia, colaborador assíduo da revista Távola Redonda, para a qual dirigia a Coleção de Poesia, do jornal Diário Ilustrado e da revista luso-brasileira Atlântico, e foi também realizador, na Emissora Nacional, do programa literário Voz do Império. De jornalista a funcionário, desempenhou ainda funções na Agência-Geral do Ultramar. Combateu a ditadura salazarista, tendo sido, como tantos outros opositores, perseguido e torturado pela PIDE. A Invenção do Amor, o seu poema que, até hoje, é um dos marcos da resistência, demarca-se pelo tom acusatório, de luta e reivindicação de um sujeito livre e individual, que, pelo amor, emergirá do coletivo. Daniel Filipe morreu, em Lisboa, aos 39 anos.
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