"A MORTE DIFÍCIL" de René Crevel - 1ª Edição de 2018
Preço: 11 €"A MORTE DIFÍCIL" de René Crevel - 1ª Edição de 2018
Especificações
- TipoVenda
- ConcelhoCascais
- FreguesiaCarcavelos e Parede
- Id do anúncio44427957
- Id do anunciante50FF
Descrição
"A MORTE DIFÍCIL"
de René Crevel
Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes
1ª Edição de 2018
SISTEMA SOLAR
192 Páginas
Nove anos antes deste acto incompreensível [o suicídio] se o não aceitarmos como momento de um muito complexo desespero René Crevel escreveu o seu terceiro romance e chamou-lhe A Morte Difícil; a morte que viria, anos mais tarde, a responder na vida real à mais nocturna face da sua condição de homem. E fê-lo com o seu surrealismo de vocação refreado até às exigências de uma grande clareza autobiográfica.
Crevel retrata-se aqui como um homossexual assombrado pela ameaça genética do pai louco e pelo comportamento de uma mãe cruel e frívola; dividido por verdadeiros desejos físicos e outros que uma ambígua relação feminina muito imperfeitamente disfarça; um jogo de bem calculada progressão no tom - o que fervilha num primeiro capítulo com humorísticas ironias e se esvai aos poucos pelas sombras de um estado físico e psicológico que se destina, em noite fria e num banco público, a acompanhar o desespero do seu fim.
Crevel receava, porém, que as exigências deste programa se cumprissem com excessiva exposição de realidades muito evidentes para os que mais de perto o rodeavam, e prejudicassem, incomodassem ou até envergonhassem os que eram modelos das suas personagens.
Que Madame Dumont-Dufour surgisse como inegável e talvez piorada versão da sua mãe burguesa, não era para Crevel um problema; mas havia o caso de Arthur Bruggle, que era impossível não ser colado ao seu amante americano Eugene McCown (a quem chamavam Coconotte ou Eugénie), saído de Kansas City e que desembarcara na França em 1923 com vontade de se usar e desbaratar para vencer nos meios intelectuais e mundanos de Paris. McCown era pintor e pianista de jazz; pintor aceite por importantes galerias de Paris, jazzman com muito êxito nas sonoridades hip-hop que enfeitaram as noites do café Le Boeuf-sur-le-Toit.
Crevel acabou por mostrar o texto de A Morte Difícil a McCown; e, perante a desagradável reacção que ele provocou no retratado, decidiu-se a acrescentar-lhe o curto capítulo final, suavizador.
Aníbal Fernandes
---
René Crevel [Paris, 1900 a 1935] descreveu-se numa «Autobiografia» que lhe foi pedida em 1926 pelas Editions du Sagittaire:
Nascido no ano 1900 em Paris, a 19 de Agosto, de pais parisienses; isto permitiu-lhe ter um ar eslavo. Liceu, Sorbonne, Faculdade de Direito; o serviço militar até ao fim de 23 dá-lhe a impressão de só estar, desde há poucos meses, verdadeiramente a viver. Não foi ao Tibete nem à Groenlândia, nem mesmo à América, mas as viagens que não tiveram lugar à superfície tentou fazê-las em profundidade. Pode portanto gabar-se de conhecer, de dia e de noite, certas ruas e os seus hotéis.
Tem horror a todos os esteticismos, sejam os de Oxford e das calças largas, dos negros e do jazz, dos bailes populares, das pianolas, etc. Bem gostaria de encontrar em romances futuros personagens tão nuas e tão vivas como as facas e os garfos com papel de homens e mulheres nas histórias que a si próprio contava quando era criança, e se arriscam a permanecer inéditas. [Note-se que o primeiro capítulo do seu quarto romance, Babylone, intitular-se-á «Monsieur Faca, Mademoiselle Garfo».]
Este Crevel que se escolhia e apressava numa «versão para leitores», omitia o já anunciado e pressentido como seu fim precoce e, não podemos deixar de dizê-lo, temperamental. Na nossa família suicidamo-nos muito, avisava com frequência, contando que tinha sido convocado pela sua mãe para ver, ainda muito jovem, o seu pai enforcado com língua de fora e ejaculação no pano das calças antes de o despendurarem e horizontalizarem no leito fúnebre.
Era homossexual de bandeira numa época que hostilizava esta frontalidade com os incómodos da exclusão; era fervoroso comunista, olhado de soslaio pelos catecismos morais do partido (ele respondia-lhes: Desde que haja puritanismo, há perigo para a revolução; e o puritanismo, que é um efeito sexual da reacção, corre fortes riscos de arrastar consigo outras reacções. Ainda acrescentava: Nada do que costuma chamar-se um vício alguma vez me aprisionou ou travou. Contraditórias no tempo, todas as minhas sedes sedes corporais, sedes de álcool, sedes de drogas, de água pura e tinta conseguiram construir mais em turbilhão, é verdade, do que em templo grego esta síntese que me forma a vida). O surrealismo seduzia-o como força nova, capaz de quebrar todos os tabus e dar à existência um novo sentido, mas adaptava-o à sua vocação de golden boy e dandy, enfrentando com sorriso largo e indiferença a homofobia militante e a hostilidade a todos os mundanismos, professadas por André Breton.
NOVO - PORTES GRÁTIS
de René Crevel
Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes
1ª Edição de 2018
SISTEMA SOLAR
192 Páginas
Nove anos antes deste acto incompreensível [o suicídio] se o não aceitarmos como momento de um muito complexo desespero René Crevel escreveu o seu terceiro romance e chamou-lhe A Morte Difícil; a morte que viria, anos mais tarde, a responder na vida real à mais nocturna face da sua condição de homem. E fê-lo com o seu surrealismo de vocação refreado até às exigências de uma grande clareza autobiográfica.
Crevel retrata-se aqui como um homossexual assombrado pela ameaça genética do pai louco e pelo comportamento de uma mãe cruel e frívola; dividido por verdadeiros desejos físicos e outros que uma ambígua relação feminina muito imperfeitamente disfarça; um jogo de bem calculada progressão no tom - o que fervilha num primeiro capítulo com humorísticas ironias e se esvai aos poucos pelas sombras de um estado físico e psicológico que se destina, em noite fria e num banco público, a acompanhar o desespero do seu fim.
Crevel receava, porém, que as exigências deste programa se cumprissem com excessiva exposição de realidades muito evidentes para os que mais de perto o rodeavam, e prejudicassem, incomodassem ou até envergonhassem os que eram modelos das suas personagens.
Que Madame Dumont-Dufour surgisse como inegável e talvez piorada versão da sua mãe burguesa, não era para Crevel um problema; mas havia o caso de Arthur Bruggle, que era impossível não ser colado ao seu amante americano Eugene McCown (a quem chamavam Coconotte ou Eugénie), saído de Kansas City e que desembarcara na França em 1923 com vontade de se usar e desbaratar para vencer nos meios intelectuais e mundanos de Paris. McCown era pintor e pianista de jazz; pintor aceite por importantes galerias de Paris, jazzman com muito êxito nas sonoridades hip-hop que enfeitaram as noites do café Le Boeuf-sur-le-Toit.
Crevel acabou por mostrar o texto de A Morte Difícil a McCown; e, perante a desagradável reacção que ele provocou no retratado, decidiu-se a acrescentar-lhe o curto capítulo final, suavizador.
Aníbal Fernandes
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René Crevel [Paris, 1900 a 1935] descreveu-se numa «Autobiografia» que lhe foi pedida em 1926 pelas Editions du Sagittaire:
Nascido no ano 1900 em Paris, a 19 de Agosto, de pais parisienses; isto permitiu-lhe ter um ar eslavo. Liceu, Sorbonne, Faculdade de Direito; o serviço militar até ao fim de 23 dá-lhe a impressão de só estar, desde há poucos meses, verdadeiramente a viver. Não foi ao Tibete nem à Groenlândia, nem mesmo à América, mas as viagens que não tiveram lugar à superfície tentou fazê-las em profundidade. Pode portanto gabar-se de conhecer, de dia e de noite, certas ruas e os seus hotéis.
Tem horror a todos os esteticismos, sejam os de Oxford e das calças largas, dos negros e do jazz, dos bailes populares, das pianolas, etc. Bem gostaria de encontrar em romances futuros personagens tão nuas e tão vivas como as facas e os garfos com papel de homens e mulheres nas histórias que a si próprio contava quando era criança, e se arriscam a permanecer inéditas. [Note-se que o primeiro capítulo do seu quarto romance, Babylone, intitular-se-á «Monsieur Faca, Mademoiselle Garfo».]
Este Crevel que se escolhia e apressava numa «versão para leitores», omitia o já anunciado e pressentido como seu fim precoce e, não podemos deixar de dizê-lo, temperamental. Na nossa família suicidamo-nos muito, avisava com frequência, contando que tinha sido convocado pela sua mãe para ver, ainda muito jovem, o seu pai enforcado com língua de fora e ejaculação no pano das calças antes de o despendurarem e horizontalizarem no leito fúnebre.
Era homossexual de bandeira numa época que hostilizava esta frontalidade com os incómodos da exclusão; era fervoroso comunista, olhado de soslaio pelos catecismos morais do partido (ele respondia-lhes: Desde que haja puritanismo, há perigo para a revolução; e o puritanismo, que é um efeito sexual da reacção, corre fortes riscos de arrastar consigo outras reacções. Ainda acrescentava: Nada do que costuma chamar-se um vício alguma vez me aprisionou ou travou. Contraditórias no tempo, todas as minhas sedes sedes corporais, sedes de álcool, sedes de drogas, de água pura e tinta conseguiram construir mais em turbilhão, é verdade, do que em templo grego esta síntese que me forma a vida). O surrealismo seduzia-o como força nova, capaz de quebrar todos os tabus e dar à existência um novo sentido, mas adaptava-o à sua vocação de golden boy e dandy, enfrentando com sorriso largo e indiferença a homofobia militante e a hostilidade a todos os mundanismos, professadas por André Breton.
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