"Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé" de Pedro Amorim Viana - 1ª Edição de 1982


Especificações


Descrição

"Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé"
de Pedro Amorim Viana

Prefácio de António Braz Teixeira

1ª Edição de 1982
INCM Imprensa Nacional Casa da Moeda
Coleção: Pensamento Português
312 Páginas

Pedro de Amorim Viana
Filósofo e matemático português (Lisboa, 1822 a 1901), professor da Academia Politécnica do Porto (1850-1883), foi uma das figuras de maior relevo do nosso pensamento especulativo de oitocentos e o iniciador do ciclo contemporâneo da filosofia portuguesa, que teve no Porto o seu pólo irradiador.

O pensamento filosófico de Amorim Viana, expresso, fundamentalmente, no livro Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé (1866) e nos artigos que, de certo modo, o preparam, publicados na revista portuense A Península (1852 a 1853), apresenta-se de feição racionalista e espiritualista, tendo como referências principais Platão, Espinosa, Leibniz e Kant.

Opondo-se, criticamente, ao sensismo da geração anterior à sua, bem como ao positivismo e ao materialismo que grande parte da geração seguinte tenderá a abraçar, Amorim Viana entendia a filosofia como actividade permanente do espírito humano, independente da ciência, à qual, no entanto, fornece os princípios ontológicos que a possibilitam e fundamentam como saber coerente, sistemático e orgânico.

Da natureza que atribuía à filosofia, resultava, para o filósofo-matemático, dever o seu ponto de partida ser o estudo dos factos da consciência, estudo que nos revelaria, por um lado, que o homem é um ser dotado de inteligência, liberdade e sensibilidade, que deve conhecer, escolher e amar o sumo bem para que foi criado, e, por outro, que os factos psicológicos se não confundem nem identificam com os fenómenos psicológicos. Assim, o primeiro problema que à reflexão filosófica cabe procurar responder é o da relação da alma e do corpo, entendendo Amorim Viana que a doutrina da harmonia pré-estabelecida, formulada por Leibniz, era a que melhor o resolvia. A este propósito, notava o sábio portuense não proceder contra aquela doutrina o argumento de que não era conciliável com a liberdade, pois tal problema só no plano da providência divina poderia solucionar-se.

Quanto a esta questão, pensava o filósofo ser incorrecto opôr a fé à razão, pois aquela não constituía um afecto da alma nem um fenómeno sobrenatural, sendo antes uma revelação natural e interior, uma iluminação superior do entendimento que se continha nos estritos limites da razão. Por outro lado, a razão comunicaria com o ser divino dentro dos seus próprios limites e não de uma maneira inefável, misteriosa ou sobrenatural, sendo, por isso, as verdades racionais revelações divinas.

Assim, no pensamento filosófico do lente da Academia Politécnica portuense, ao lado do domínio da razão, haveria o do sentimento moral e o dos mistérios, que com o primeiro se conjugavam de modo harmonioso. Com efeito, o sentimento moral era conforme à razão, embora dela distinto, enquanto os mistérios seriam verdades que excediam a capacidade cognitiva da razão, sem, contudo, a contradizerem ou se lhe oporem.

Por seu turno, o conceito de razão de Amorim Viana apresentava-se de recorte ainda iluminista, como o de uma razão luminosa e segura de si, na sua origem divina, no seu processo lógico-discursivo e na finalidade transcendente, a qual não só se não interrogava ou se questionava sobre os seus limites ou o seu saber de si, recusando todo o irracional e todo o negativo, como se iria progressiva e indefinidamente adequando ao conhecimento da realidade.

É neste conceito de razão que se apoia a consideração crítica a que, na sua obra capital, o filósofo sujeitou os dogmas essenciais do cristianismo, como os do pecado original, da divindade de Jesus ou da Trindade divina, e os problemas da possibilidade da profecia e do milagre, da realidade do mal e da imortalidade da alma humana.

Assim, ao mesmo tempo que considera carecidos de sentido o pecado original e as ideias de queda e de redenção e impossíveis a profecia, o milagre e a divindade de Jesus, sustentava que o mal não tinha existência real e, quanto à imortalidade da alma, perfilhava uma espécie de retormismo ascendente, segundo o qual, após a vida terrena, o homem habitaria outro espaço, no qual nasceria e morreria, para começar nova existência noutra região, numa sucessão de nascimentos e mortes, em que seria cada vez mais perfeito e se aproximaria cada vez mais do bem, embora nunca chegasse a atingir a infinita perfeição, que constituía exclusivo atributo divino.

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