"O INQUIETO VERBO DO MAR" - Poesia Reunida de Sebastião da Gama - 1ª Edição de 2024


Especificações


Descrição

"O INQUIETO VERBO DO MAR" - Poesia Reunida
de Sebastião da Gama

Edição de João Reis Ribeiro

1ª Edição de 2024
ASSÍRIO & ALVIM
Coleção Documenta Poética
1194 Páginas

Eu amo a Primavera pois, sorrindo / a Natureza é, tudo florindo

Pela primeira vez, reúne-se toda a poesia conhecida de Sebastião da Gama, o poeta que cantou como ninguém o amor à natureza. É nestes versos, ora densos, ora leves, que encontramos algo que poderíamos descrever como «ecocrítica»: no seu empenho pela preservação da Serra da Arrábida, o poeta mostra-nos o que há de superlativo nos espaços que nos rodeiam, exercendo o seu olhar de pedagogo e generosidade na partilha de saberes. O livro conta ainda com alguns documentos úteis ao estudo desta poesia, tais como uma cronologia detalhada da vida do poeta e acontecimentos sobre a sua obra; um anexo biobibliográfico comentando cada livro aqui contido e um posfácio de João Reis Ribeiro, que preparou esta edição, iluminando alguns pontos destas composições.

*
ELEGIA

Quero morrer ao Poente,
pra que a luz que se esbate...
e se funde no verde das ramadas
seja eu a morrer-me lentamente...

Quero morrer a essa hora mansa,
pra que a Noite depois, quando vier
embalar as estevas e beber
os branquíssimos sonhos do folhado,
pra que a Noite seja o meu cadáver
perfumado...
pra que as Estrelas
sejam bicadas de abutres
no meu cadáver...

Quero morrer ao Poente,
quero que a Noite seja o meu cadáver,
pra que, depois o leve tremular
do Ar,
pra que o nocturno aceno
pleno
de Ritmo e som do Ar,
seja o meu coração vibrando ainda,
a não poder-se conformar
com a Senhora Morte que o deixou
amortalhado em Luar...

Quero morrer à hora do Poente,
à minha hora tranquila...
Que não saiba ninguém, quando no Céu
brilhar a primeira Estrela,
se a luz crepuscular, em mim, num êxtase, morreu,
ou se fui eu
que o espírito nela diluí,
pra ir morrer nos lábios descorados
de uma crinça doente...

Quero morrer ao Poente,
confusamente ouvindo os dobres de finados
que há-de o Vento gemer nos magoados
lírios do campo...

---
Sebastião Artur Cardoso da Gama nasceu em 1924 e morreu em 1952. Foi poeta e professor. A sua obra encontra-se ligada à Serra da Arrábida, onde vivia, que tomou por motivo poético de primeiro plano (desde logo no seu livro de estreia, Serra-Mãe, de 1945), e à sua tragédia pessoal motivada pela tuberculose. Além da obra citada, merecem referência Cabo da Boa Esperança (1951) e Campo Aberto (1950). O seu Diário, editado postumamente em 1958, é um interessantíssimo testemunho da sua experiência como docente e uma valiosa reflexão sobre o ensino, escrita numa prosa de grande qualidade.

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