"POEMAS" de Reinaldo Ferreira - 3ª Edição de 1970


Especificações


Descrição

"POEMAS"
de Reinaldo Ferreira

Prefácio de José Régio

3ª Edição de 1970
PORTUGÁLIA Editora
Coleção Poetas de Hoje
194 Páginas

RECEITA PARA FAZER UM HERÓI

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

*
MENINA DOS OLHOS TRISTES

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta do outro lado do mar
Vamos senhor pensativo
Olhe o cachimbo a apagar
O soldadinho não volta do outro lado do mar
Senhora de olhos cansados
Porque a fatiga o tear
O soldadinho não volta do outro lado do mar
Anda bem triste um amigo
Uma carta o fez chorar
O soldadinho não volta do outro lado do mar
A lua que é viajante é que nos pode informar
O soldadinho já volta
Está mesmo quase a chegar
Vem numa caixa de pinho do outro lado do mar
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar

---
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (Barcelona, 20 de março de 1922 - Lourenço Marques, 30 de junho de 1959) foi um poeta português que realizou toda a sua obra em Moçambique.

Filho do célebre Repórter X, Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, nasceu no dia 20 de Março de 1922, em Barcelona.

Reinaldo Ferreira chega a Lourenço Marques em 1941, finaliza o 7.º ano do liceu e ingressa como aspirante no Quadro Administrativo da Colónia, tendo subido até Chefe de Posto.

Os primeiros poemas começam a ser publicados nos jornais locais ou em revistas de artes e letras. Adapta para a rádio peças de teatro e, mais tarde, colabora no teatro de revista. Autor da letra de canções ligeiras, entre as quais Kanimambo, Uma Casa Portuguesa e Piripiri. Os seus poemas foram cantados por vários nomes da música portuguesa, entre eles: Amália, Amélia Muge, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, José Afonso, Manuel Freire e Valete.

Em 1959 é-lhe detectado cancro do pulmão e morre em junho desse ano.

Não editou nenhum livro em vida, mas em 1960 é publicado Poemas, uma coletânea dos seus poemas.

António José Saraiva e Óscar Lopes compararam-no ao poeta Fernando Pessoa, realçando «o mesmo sentir pensado, a mesma disponibilidade imensamente céptica e fingidora de crenças, recordações ou afectos, o mesmo gosto amargo de assumir todas as formas de negatividade ou avesso lógico»

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