"POESIAS COMPLETAS" 1951 a 1986 de Alexandre O' Neill - 3ª Edição de 1990


Especificações


Descrição

"POESIAS COMPLETAS" - 1951 a 1986
de Alexandre O' Neill

Este volume já inclui o último livro do autor publicado postumamente em 1986, o ano na morte do Poeta:
"
O Princípio de Utopia, O Princípio de Realidade seguidos de Ana Brites, Balada tão ao Gosto Popular Português & Vários Outros Poemas"

Prefácio de Clara Rocha

Biografia Cronológica de Ana Maria Pereirinha

3ª Edição revista e aumentada de 1990
INCM - Imprensa Nacional - Casa da Moeda
Coleção Biblioteca de Autores Portugueses
580 Páginas

Para Clara Rocha, a poesia de Alexandre O'Neill coincide com o programa surrealista a dois níveis: "a libertação total do homem e a libertação total da arte.

O que implica: primeiro, uma poesia de 'intervenção', exortando os homens a libertarem-se dos constrangimentos de toda a ordem que os tolhem e oprimem (familiares, sociais, morais, quotidianos, psicológico, políticos, etc.); segundo, a libertação da palavra de todas as formas de censura (estética, moral, lógica, do bom senso, etc.)" (cf. ROCHA, Clara - prefácio a Poesias Completas

GATO

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar

o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

in Pág. 170

---
Alexandre O'Neill

Nasceu a 19 de dezembro de 1924, em Lisboa, e morreu a 21 de agosto de 1986, na mesma cidade.

Poeta.

De seu nome completo Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões, frequentou a Escola Náutica e acabou seguindo a carreira de publicitário, de cuja actividade não raro contrabandeou para a poesia, com o maior à-vontade e não menor eficiência, técnicas várias onde se destaca, por exemplo, a economia do texto. E o contrário também foi verdadeiro, pois slogans há de sua autoria que, na memória do grande público, ficaram muito para além do tempo e do motivo da criação devido à arte poética que os enforma.

Em 1947, fundou, com António Pedro, Mário Cesariny de Vasconcelos, José Augusto França e alguns outros, o Grupo Surrealista de Lisboa, de que se acabará desligando, desencantado, mas não deixando nunca de ser de alguma forma refém dessa sua primeira experiência que lhe proporcionou a estreia com o poema gráfico A Ampola Milagrosa (1948).

Em 1951, já afastado daquele movimento mas a cuja experiência ainda então se refere, publica a primeira colectânea de poemas, Tempo de Fantasmas, a que se seguiriam dez outras, a última das quais no ano da sua morte, bem como dois volumes de narrativas.

O desencanto por tudo o que o rodeava, e que não raro se vestia de um humor sentimentalmente descomprometido, com traços de ironia, mais desdenhosa do que cáustica, alarga-se até àquilo mesmo que escreve. Aliás, como muito bem lembra Clara Rocha, O' Neill, que «tem realmente muito de artesanato da palavra, de artefacto, de técnica», povoa a sua mais tardia poesia de palavras formadas com o prefixo negativo «des», prefixo a que, para do poeta melhor falar, não raro tivemos também de recorrer.

Antiliterário militante (e desfazedor das artes poéticas costumeiras), mas poeta de vanguarda, não desdenha como tal piscar o olho a um Cesário Verde, ao seguir-lhe certos meios de qualificar e demonstrar, ou mesmo a outros poetas habitualmente menos influentes.

Senhor de uma técnica de comunicação escrita ímpar, a sua poesia devia, como tal, ser estudada nas escolas se as escolas por essa ferramenta se interessassem. Mas deixemos esse País Relativo, «por conhecer, por escrever, por ler...», e lembremos, ainda com Clara Rocha, que O' Neill «começa por procurar a liberdade do homem na liberdade da palavra» e que «mesmo que nem sempre se adira ao modo como o fez, a verdade é que sabe bem ler esta poesia divertida mas que incomoda, inventiva e contudo bem enraizada numa tradição literária portuguesa (mesmo se em certa hora "por pouco não nos chamaram Os Franceses") e que nos fala de um destino colectivo com o qual nos sentimos por força identificados.»

Alexandre O' Neill colaborou na década de sessenta nos suplementos literários «Vida Literária», do Diário de Lisboa e «Cultura e Arte» de O Comércio do Porto, e dirigiu com Palma-Ferreira e Carlos Ferreira a revista Critério (1975 a 1976). Tem ainda colaboração poética dispersa, entre outros, pelos seguintes jornais e revistas literárias: Litoral (1944-45), Mundo Literário (1946-48), Unicórnio (1951), Pentacórnio (1956), Europa (1957), Diálogo (1957-58), Notícias do Bloqueio (1957 a 1962), Cadernos do Meio-Dia (1958), Cronos (1965 a 1970), Silex, de cujo conselho de leitura fazia parte (1980), e Jornal dos Poetas e Trovadores (1983).

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